Prof. Dr. Leomar Nascimento
Afinal, o que define o “divino”? O que torna algo “sagrado”? Para além das respostas oferecidas pela fé, a Ciência da Religião nos convida a olhar para as “divindades” como fenômenos que revelam a própria história da humanidade. Neste artigo, exploramos como as diferentes formas de conceber o sagrado moldam culturas e por que essa compreensão é vital para um Ensino Religioso fundamentado no respeito e na alteridade.
- O que é a Ciência da Religião?
Para compreender melhor o caminho metodológico da Ciência da Religião, podemos compará-la à Teologia. Não para afirmar que uma é superior à outra, mas para destacar que possuem abordagens distintas.
A Teologia parte do pressuposto de que Deus existe e se revelou na história. Outras formas de reflexão, como os Estudos Islâmicos, a Budologia ou qualquer análise desenvolvida dentro de um grupo confessional, assumem pressupostos de fé.
Já a Ciência da Religião se dedica ao estudo das manifestações daquilo que é considerado sagrado, adotando métodos próprios à concepção moderna de ciência. Analisa as religiões como fenômenos culturais, sociais e históricos, sem tomar partido sobre a veracidade das crenças. Não busca uma “verdade última”.
Em resumo, não parte da fé, mas da análise dos fenômenos religiosos enquanto construções humanas. Seu objetivo não é afirmar ou negar a existência do divino, mas compreender como diferentes sociedades constroem, interpretam e vivenciam essa noção. Para isso, dialoga com áreas como Filosofia, Antropologia, Sociologia, Psicologia e Teologia.
- A diversidade das concepções de divindade
A noção de “divino” ou “divindade” não é homogênea entre as sociedades. A diversidade cultural gera diferentes formas de compreender e nomear o divino. Assim, encontramos tradições monoteístas, como o cristianismo, o islamismo e o judaísmo, que entendem a divindade como um ser único e absoluto. Há também tradições politeístas, como o hinduísmo e as religiões greco-romanas, nas quais há uma multiplicidade de deuses com atributos específicos.
Existem ainda concepções panteístas e panenteístas. No panteísmo, Deus e o universo são uma mesma realidade. No panenteísmo, Deus transcende o universo, mas também está presente nele. Já nas tradições animistas, presentes em diversas religiões indígenas e africanas, reconhece-se a sacralidade em elementos da natureza, como rios, montanhas e animais.
- O divino como construção simbólica e experiência humana
Na perspectiva da Ciência da Religião, a divindade não é compreendida como uma entidade transcendente e ontológica, mas como uma construção simbólica e cultural. Isso não significa negar sua realidade e importância para aqueles que creem, mas implica reconhecer que a ideia de divindade é uma manifestação do gênero humano, moldada por contextos históricos, sociais e políticos.
A vida tribal, por exemplo, apresentava um saber local, narrativas orais e a primazia do coletivo. Com o surgimento das cidades, as relações sociais se tornaram mais complexas, surgindo a busca pelo universal, a disseminação da escrita e a valorização do indivíduo.
Esse processo impactou profundamente a experiência religiosa. O contato com diferentes culturas e tradições levou à formulação de concepções mais amplas sobre o mundo. Assim, os deuses locais deram lugar a deuses nacionais e até universais. As concepções de divindade acompanham, portanto, as transformações históricas da humanidade.
- Implicações para o Ensino Religioso
Para os professores de Ensino Religioso, essa diversidade exige um ensino que respeite diferentes concepções de divindade, sem impor uma única visão. O desafio é oferecer uma abordagem pluralista, que valorize tanto a tradição dos alunos quanto a compreensão do outro.
O papel do educador não é catequizar, mas possibilitar o diálogo e a reflexão crítica. A sala de aula deve se tornar um espaço onde diferentes formas de religiosidade — e até mesmo a ausência delas — possam ser debatidas com respeito e profundidade.
Conclusão
Ao analisar o divino sob a ótica da Ciência da Religião, percebe-se que não há uma única resposta sobre o que é a divindade. Mais do que buscar uma definição única, essa área do conhecimento se dedica a compreender as múltiplas formas de experiência do sagrado, reconhecendo-as como legítimas dentro de seus próprios contextos históricos e culturais e investigando seus impactos na vida social.
Ao entender essa pluralidade, amplia-se a capacidade de diálogo e respeito, contribuindo para a construção de uma sociedade mais tolerante e diversa.
REFERÊNCIAS
ASLAN, Reza. Deus, uma história humana. Rio de Janeiro: Zahar, 2018.
HEERDT, Mauri Luiz; BESEN, José Artulino; DE COPPI, Paulo. O universo religioso: as grandes religiões e tendências religiosas atuais. São Paulo: Editora Mundo e Missão, 2008.
PASSOS, João Décio. Teologia e outros saberes: uma introdução ao pensamento teológico. São Paulo: Paulinas, 2010.
PASSOS, João Décio; USARSKI, Frank (orgs). Compêndio de ciência da religião. São Paulo: Paulus; Paulinas, 2013.