Crise: perigo ou oportunidade?

Frequentemente, diante de acontecimentos áridos como perdas, doenças, desilusões, falhas éticas ou crises sanitárias e políticas, sentimo-nos desestabilizados. Utilizamos a palavra “crise” para designar esses momentos de tensão e confusão interior. Esse fenômeno, contudo, não é apenas um peso individual; ele se manifesta com força nas estruturas da nossa sociedade, atingindo a política, a ciência e a própria forma como lidamos com a verdade.

Como bem recorda John Powell, a palavra chinesa para “crise” é composta por dois caracteres: o primeiro significa “perigo” e o segundo, “oportunidade”. Para o pessimista, a crise é um evento catastrófico que conduz à paralisia. Para quem cultiva uma visão de crescimento, ela é um marco de maturidade — um trampolim para mergulharmos com mais consciência no mistério da vida, a fim de melhor compreendê-la e vivê-la.

Nesse sentido, a crise torna-se um “espaço” concreto de experiência com o sagrado de nossa existência e uma possibilidade de encontro com aquilo que nos transcende, ao qual podemos chamar “Deus” ou dar-lhe outros nomes. É um Kairós — um tempo oportuno — onde o transcendente nos convida a nos despojarmos de nossas seguranças meramente humanas. Ele nos mostra nitidamente que, quando as velhas certezas desmoronam, podemos ir além.

O mundo sempre atravessa crises, mas as de agora talvez tenham tomado uma proporção inimaginável graças à revolução tecnológica e, especialmente, à conexão que estabelecemos por meio da revolução comunicacional. Como recorda o Papa Francisco, “tudo está interligado”. Vemos, como que por uma lupa, as crises da atualidade: a ameaça ecológica, a polarização política, a desigualdade social, a violência e o fenômeno das notícias falsas (fake news). Testemunhamos o uso da religião para manipular, além do racismo, da LGBTfobia e de tantos outros flagelos.

Vivemos tempos onde a verdade é frequentemente sacrificada no altar do lucro e do mercado. Basta observarmos como os meios de comunicação e a lógica digital podem ceder à tentação de difundir conteúdos que tornam nossa sociedade mais ansiosa, polarizada e menos instruída. É preciso romper com essa lógica que fragmenta a beleza das relações humanas e da própria dignidade da vida.

Sim, vivemos uma crise civilizatória, mas ela deve ser entendida como uma oportunidade para um profundo exame de consciência global. Se em outros tempos o medo e a repressão ditavam as normas, hoje colhemos os frutos de uma liberdade muitas vezes divorciada da responsabilidade e da ética do cuidado. Os resultados estão em todas as camadas da sociedade: na degradação ambiental, no crescimento do ódio e no vazio existencial que muitos sentem.

Creio que todos esses acontecimentos, embora dolorosos, podem ser o solo onde florescerá uma entrega mais generosa ao serviço do próximo. A crise nos obriga a aprofundar o diálogo entre a nossa formação técnica e a nossa sensibilidade humana. Uma espiritualidade — ou uma filosofia de vida — que não se enraíza em uma humanidade bem equilibrada é uma construção que tende à autodestruição.

Toda crise é, enfim, o grande convite para crescermos no caminho da maturidade. Que saibamos olhar para o perigo das nossas fragilidades atuais não como um fim, mas como a oportunidade de redescobrir o que há de mais sagrado em nossa jornada comum: a nossa capacidade de renovação, de compaixão e de busca pela verdade.

Leomar Nascimento

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