Entre o Catecismo e a vida: como os grupos católicos LGBTQIA+ leem o §2357

Uma pergunta recorrente quando se fala da presença de grupos católicos LGBTQIA+ na Igreja diz respeito ao §2357 do Catecismo da Igreja Católica, que define os atos homossexuais como “depravações graves” e “intrinsecamente desordenados”. Como esses grupos compreendem tal afirmação?

Antes de responder diretamente, é necessário esclarecer o uso do termo “pastoral”. Embora alguns coletivos lancem mão dessa designação — ou sejam assim chamados por pessoas de fora —, ainda não há, por parte da hierarquia eclesial, um reconhecimento oficial e pleno desse título. Na Igreja Católica, o selo de “pastoral” implica identidade e legitimidade institucional. No caso dos grupos LGBTI+, infelizmente, esse reconhecimento frequentemente é negado sob a alegação de uma suposta desconformidade doutrinária.

Apesar disso, os grupos hoje se organizam de maneira estável e articulada. Atualmente são cerca de 25 coletivos espalhados pelo Brasil. Estão filiados ao Conselho Nacional do Laicato do Brasil (CNLB), contam com um bispo referencial para acompanhamento pastoral — Dom Arnaldo Cavalheiro —, participaram da peregrinação a Roma por ocasião do Jubileu de 2025 e já foram acolhidos e ouvidos pela presidência da CNBB.

A forma de organização também é plural: alguns grupos se reúnem em espaços cedidos por congregações religiosas; outros nas próprias casas; outros ainda se encontram virtualmente ou em espaços considerados neutros; uma minoria é acolhida em paróquias. Todos, porém, partilham o mesmo horizonte: afirmar sua cidadania batismal e sua pertença inalienável à Igreja.

Dito isso, como compreendem o §2357? A leitura feita por esses grupos parte do entendimento de que o Catecismo deve ser situado no contexto histórico e teológico em que foi formulado. Diferentemente de movimentos como o Courage International, que assumem a expressão “intrinsecamente desordenados” como uma verdade definitiva e imutável, a Rede considera que tais formulações refletem uma determinada compreensão da sexualidade humana, marcada pelos limites do conhecimento científico e antropológico de seu tempo.

A crítica ao §2357 costuma se apoiar em quatro pontos principais.

  1. Uma antropologia limitada: O texto parte de um modelo fixo e binário de ser humano, centrado exclusivamente na complementaridade “macho-fêmea” e construído a partir da figura masculina como referência universal — expressão de uma cultura historicamente androcêntrica. Hoje, as ciências humanas e biológicas evidenciam que a realidade da sexualidade é mais complexa do que esse esquema permite reconhecer. Além disso, a experiência concreta e a biografia de cada pessoa não podem ser ignoradas em nome de uma definição abstrata de “natureza humana”. A Boa-Nova de Jesus aponta para a dignidade da pessoa concreta, não para a defesa de um modelo uniforme de humanidade.
  1.  Coerência no uso dos métodos bíblicos. A Igreja utiliza amplamente o método histórico-crítico na interpretação das Escrituras em diversos temas. No entanto, quando o assunto é sexualidade, muitas vezes recorre a leituras mais literais. Uma análise histórica atenta mostra que os textos bíblicos tratam de práticas específicas de seu tempo, e não das relações afetivas e comprometidas entre pessoas do mesmo sexo como as conhecemos hoje.
  1. A Tradição é viva. A própria doutrina católica reconhece a existência de uma hierarquia de verdades e afirma que o centro da fé é a ação salvífica de Deus revelada em Jesus Cristo. Como nos recordou o Papa Francisco, a Tradição não é um museu de fórmulas intocáveis, mas um processo vivo de discernimento à luz do Espírito. Quando determinadas normas produzem sofrimento sistemático e exclusão, é legítimo perguntar se precisam ser aprofundadas ou reformuladas.

4. A escuta das experiências. Há uma distância real entre certas formulações doutrinais e a vida concreta de católicos LGBT+. Muitas dessas pessoas vivem relações marcadas por amor, compromisso, cuidado e fé. Ignorar essas experiências significa desconsiderar um possível lugar teológico — isto é, um espaço onde Deus também se revela na história.

Em síntese, esses grupos não leem o Catecismo como um ponto final, mas como um texto situado em determinado momento da reflexão da Igreja. Como toda formulação teológica, ele pode — e deve — ser aprofundado à luz de novos conhecimentos e da experiência viva do Povo de Deus.

O compromisso permanece o mesmo: fidelidade ao Evangelho, centralidade da dignidade humana e confiança de que o Espírito Santo continua conduzindo a Igreja “à verdade plena” (Jo 16,13).

Leomar Nascimento

18/02/2026

Para aprofundar

REDE NACIONAL DE GRUPOS CATÓLICOS LGBT+: Rede Nacional de Grupos Católicos LGBT

NASCIMENTO DE JESUS, Leomar. As outras cores do catolicismo: estudo sobre os grupos católicos LGBTI+. Disponível em: https://tede2.pucsp.br/bitstream/handle/41153/1/Leomar%20Nascimento%20de%20Jesus.pdf (Tese de doutorado, 2024)

NASCIMENTO DE JESUS, Leomar. As outras cores do catolicismo: os grupos católicos LGBTI+ e a afirmação de sua cidadania religiosa. Disponível em: https://seer.pucgoias.edu.br/index.php/caminhos/article/view/13998 (artigo, 2024)NASCIMENTO DE JESUS, Leomar. Mais azul que rosa: moral sexual católica e comunidade LGBTQIA+. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/images/stories/cadernos/teopublica/176cadernosteologiapublica.pdf. (artigo).

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